sábado, 28 de agosto de 2010

MOSTRA DE POEMAS - Um outro olhar é possível...


“De que vale olhar sem ver”
Goethe


PROCURA...

Olhos de Lince
e mãos
são antídotos
para o artista, poeta e irmão
que tocam no instrumento,
na imaginação
Olhos de Gueixa
e sedução
são artimanhas
para o corpo, alma e coração
que se apaixonam no olhar
na canção

Olhos de Jade
são os seus a procura dos meus



“A ti, Amor, minha outra vida, pois quando oro a Deus teu nome ele ouve e o pranto em meus olhos são lágrimas de nós dois”
Manuel Bandeira


A NOITE ACABOU

Como eram lindas
aquelas noites
Quando nossos beijos
paravam o trânsito
Quando nossos abraços
congestionavam as avenidas
Quando nossas lágrimas
alagavam as calçadas
Quando nossas chamas
clareavam as ruas
Quando nossos toques
apagavam as luzes da cidade
Tudo silenciava,
todos iam dormir...
Apenas nós ficávamos a vadiar;
a nos abraçar,
a nos beijar,
a nos tocar...
Hoje não sei mais o que fazer
A noite acabou. O dia amanheceu.
De vez em quando
ainda anoitece dentro de mim,
Mas vejo que em você faz meio-dia.
Então, bom-dia.
Cadê o meu edredon?


















ETERNO VIVER

Neste sonho lindo
que é a vida
a cada amanhecer
respiras a liberdade
do novo e do belo
Nesta linda vida
que é um sonho
a cada anoitecer
transpiras a felicidade
de um viver eterno
Em cada sonho
uma esperança
de cada vida
uma lembrança
Assim, sonho e realidade
se misturam
e fazem a vida acontecer
corpo e alma
se completam
na busca de um
eterno viver



















QUIMERA

Quimera que não consigo
Traduzir em aquarela
São desejos de nós dois
Estampados numa espera
Desenhei num pedestal
Com brilho e muita luz
A alma de quem eu amo
E onde ela me conduz
Os seus olhos eu pintei
Com cor de mel e madeira
Sua mão deixei em pauta
Pra durar a vida inteira
Em compasso circulei
A distancia entre nós
E depois eu cravejei
Com sátira a sua voz
Nosso amor eu rabisquei
Fiz com ele um paraíso
Depois do primeiro beijo
Nós dois perdemos o juízo


TANTO QUERER

Quero
Cada vez que te espero
Me desesperar
Se eu não te achar
Quero
Que tu me fales...
Que tu me cales,
Caso eu perguntar.
Quero
Teu olhar sereno
Esse teu jeito ameno
De me torturar.
Quero
Em teu lindo sorriso
Fazer um paraíso
Pra gente se amar.



SOLIDÃO

Aponta pra mim o caminho
Me mostre a direção
Tire de mim o espinho
Que causou a solidão
Me conduza ao lindo Éden
Onde o gozo não tem fim
Me ensine a ensinar
Pra que nada fique assim
Vem estar comigo hoje
Me fazendo companhia
Florescendo meu deserto
Me livrando da agonia
Não quero ficar pra sempre
No silêncio do saber
Irei explorar o mundo
Sem ao menos conhecer
O fim da vida vivida
A dor da separação
O luto de uma saudade
E o porquê da solidão



CAMINHOS CRUZADOS

Atraído por seu encanto
Deixei-me envolver
Transeunte em meu caminho
Fiz você me perceber
Seus olhos têm um fulgor
Que transmutam energia
Foi tão forte a emoção
Que eu senti naquele dia
Ao abrir nossas comportas
Desaguamos para o mar
Ao sentir o seu abraço
Meu corpo quis se entregar
Fizemos daquela noite
A mais longa madrugada
Acabaram as nossas buscas
Veio a paz tão desejada
Hoje somos assim
Frutos desta maresia
"Incestuosa sua voz
e a minha poesia"
*citação: Sueli Costa/Abel silva













FLOR MULHER

Alma menina
Olhos domínios
Mãos de afago
Corpo mulher
Espírito grande
Gera fascínio
Pureza transcende
Amor bem-me-quer

Na ânsia das almas
Tranqüila é tua voz
No ímpeto dos homens
Acalentas a nós
Assim te descrevo
Para te eternizar
No verso e na mente
E em todo lugar...

LÁGRIMA DISCRETA

Não pense que te esqueci
Não me olhe com esse olhar
Pois em seu rosto reflete
Um desejo de me amar
Dentro de nós existe
Um amor que não findou

Mas por um simples adeus
Você me abandonou
Eu penso muito em você
Não escuto mais sua voz
No silêncio do meu rosto
As lágrimas caem por nós
Eu tenho você em mim
No pouco que me dissera
O amor que é verdadeiro
Não morre, mas dilacera




Mostras de poemas: Fernando Caiel (Autoral)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Inter conquista bi da Libertadores

Outra virada sobre o Chivas Guadalajara e o Inter se tornou bicampeão da Copa Libertadores na noite desta quarta-feira, no estádio Beira-Rio. Os 3 a 2 igualaram os gaúchos a River Plate, Santos, Cruzeiro e Grêmio, o técnico Celso Roth conquistou seu primeiro título de expressão e a vitória coroou uma geração que levantou o troféu em 2006, com Tinga, Sóbis, Bolívar, Renan e Índio. A torcida enfim pôde mudar o canto que ecoou no estádio por 90 minutos de “Inter, Inter, seremos campeões” para “somos bicampeões da América”.

Os mexicanos saíram na frente no primeiro tempo, com Fabián, mas Rafael Sóbis empatou no segundo e Leandro Damião virou a partida. Giuliano, o talismã, ainda fez o terceiro, e Omar Bravo descontou no final. Agora o Inter mira Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, onde em dezembro tentará outro bi, este do Mundial de Clubes da Fifa – mesmo se perdesse estaria classificado, já que o Chivas é membro da Concacaf e não pode se classificar via Libertadores.

Rafael Sóbis foi repatriado do futebol árabe e chegou ao Beira-Rio fora de forma. Forte nos bastidores da CBF, a diretoria do Internacional conseguiu que ele e mais dois jogadores (Renan e Tinga) fossem inscritos antes da janela de transferência estar aberta. Quis o destino que o titular Alecsandro se machucasse no primeiro jogo da final e não tivesse condições de jogo em Porto Alegre. Sóbis então ganhou chance entre os titulares e fez o gol que iniciou a conquista. Tudo isso com Pelé nas tribunas. O “Rei do Futebol”, de terno vermelho por causa do patrocinador, apostou pela manhã no Inter campeão. E jogou a fama de pé-frio na lata do lixo, ao entregar a taça para o capitão Bolívar, que levou o filho para o momento especial.

O Inter estava nervoso em campo. Os mexicanos faziam muitas faltas, algumas violentas, mas Oscar Ruiz aliviava no cartão. Mesmo assim, os donos da casa erravam muitos passes e viviam de jogadas isoladas de D’Alessandro ou da velocidade de Sóbis ou Taison.

O Chivas aos poucos dominou o meio-campo, com Bautista e Fabián dando as cartas. Bautista era perseguido por todo o campo por Sandro, mas mesmo assim conseguia se desvencilhar e tentar lançamentos para Omar Bravo.

Em um dos passes, Bravo, de 1,69m, pulou mais alto do que Bolívar, de 1,85m, e conseguiu jogar a bola para o meio da área, onde Fabián acertou um voleio e abriu o placar. Tensão no Beira-Rio, já que o resultado levava a disputa para a prorrogação.

Celso Roth preferiu não mudar o time ou o esquema no intervalo. Mas, com 11 minutos, percebeu que precisaria de maior ímpeto ofensivo e pediu para chamar Giuliano, o talismã que havia marcado gols decisivos em três jogos da competição. Pois Roth nem viu direito o gol de empate de Sóbis, que nasceu de um cruzamento de Kléber. Ele dava instruções a Giuliano e, quando se virou para o campo, seu time havia empatado. Não se sabe se tiraria Sóbis, sem ritmo, mas depois mudou de ideia e sacou Taison.

Com o treinador, que assumiu durante a parada por causa da Copa do Mundo da África do Sul, o Inter só marcou gols no segundo tempo na Libertadores. Foi assim nas duas partidas da semifinal contra o São Paulo, diante do Chivas em Guadalajara e no Beira-Rio nesta quarta. A estrela de Roth brilhou porque quando decidiu sacar o até então artilheiro da noite, cansadíssimo, colocou Leandro Damião, garoto de 21 anos, contratado do futebol catarinense e que pulou igual criança quando marcou a virada. Giuliano, artilheiro do time na Libertadores, marcou seu sexto gol e completou a vitória.

Até o final o Inter tocou a bola, a torcida cantou, o Chivas entendeu que estava derrotado (apesar de Arellano ter apelado, feito falta dura em D’Alessandro e ter sido expulso no final). O resto foi festa na noite de Porto Alegre. Os mexicanos ainda diminuíram no final, brigaram com os colorados depois do jogo e saíram de campo vaiados. Noite quente para o mês de agosto e que esquentou ainda mais com outro título brasileiro na Libertadores.
Capitão Bolivar recebe troféu da Libertadores das mãos de Pelé

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Canto da Cigarra


Tenho tentado decifrar ao longo desses anos - mais de 25 -, o porquê de Simone estar tão impregnada em minhas trilhas sonoras; e a resposta que me vem, nada mais é que um silêncio sinfônico estrondeante. Às vezes, chego a pensar que um artista sofre a mitificação pelo processo contínuo de supervalorização de seu trabalho - e como sofre. Muitos outros são endeusados não só pela mídia, mas também pelo excesso de roupagem que lhe dão. Simone, por exemplo, é uma artista que transcendeu a esses quisitos de imagem, e se tornou exímia por sua voz. Dona de um acorde grave e visceral, mesclado com seu carisma e sensualidade, ela tem se firmado com eminência na nossa tão decaída MPB, produzindo discos e shows impecáveis. Aos 60 anos de idade - e 37 de carreira -, consegue demostrar no palco que o artista amadurece junto com seu público, e que a simetria formada entre a plateia e ela faz com que o show seja radiante de luz e felicidade. Ela já se firmou no cenário musical, não somente com seu "Começar de novo", mas com suas temáticas românticas e intrísecas sobre o amor e a paixão.
Quando ouvi Simone pela primeira vez, pareceu-me algo tão extraordinário - tal qual pareceu ao mundo a chegada do homem à lua -, poeticamente falando. Formou-se um rio em minha face e a sonoridade de seu canto adentrou minha alma, floresceu lótus em meu deserto... alagou o meu sertão. Nunca mais consegui me desvencilhar de suas melodias. E confesso que tenho aprendido muito com elas. Foram tantos os momentos marcados por esta voz, desde "Você é real" - minha primeira trilha sonora destinada a um romance - até "Migalhas" - último fragmento de uma paixão - sempre fiz escalas em suas canções, como se eu quisesse sempre voar, ou - como diz a letra de Vander Lee - estivesse sempre "Esperando aviões".
Vem aí - com lançamento em setembro - mais um DVD acompanhado de um CD Ao Vivo, gravado lá em Recife, do Show "Em boa companhia". Tive o privilégio de assisti-lo por duas vezes, no "Rio/Canecão" e aqui em "Poa/ Sesi". Esse show "Em Boa Companhia" marca o lançamento de seu novo disco, Na Veia. Estavam no roteiro as doze canções do CD, além de sucessos e canções nunca cantadas pela Cigarra, como Perigosa, sucesso das Frenéticas. Simone comoveu o público que lotou o Canecão e também o Sesi ao interpretar, de seu repertório, a canção Face a face. Outro grande momento do show foi o encerramento, com uma versão intensa e quase à capela de Chuva, suor e cerveja. Já no bis a cantora - que impressiona pela elegância e beleza - trouxe à cena Martinho da Vila, que estava na plateia, e dividiu os vocais com Simone no samba Canta canta minha gente, lá no Canecão, porém, aqui em Porto Alegre, fez um belíssimo encerramento com Ex-amor de autoria do próprio Martinho.
Para mim, fica a certeza de duas coisas: meu eterno amor por Simone e sua arte e a emoção registrada do primeiro encontro. Depois disso, compreendi porque Simone é a mais completa cantora brasileira: porque ela exibi o carisma das grandes estrelas, grande na voz, imensa na emoção com que se entrega às músicas, ao espetáculo e, em consequencia, ao seu público. Posso afirmar que, a partir de agora, tudo que vier vem bem. Claro, não tem como a gente resistir ao olhar profundo de alguém que a gente ama, por isso "Olhe bem nos olhos da morena e veja lá no fundo
a luz daquela primavera..."


Eis o tão esperado trabalho dela...

domingo, 2 de maio de 2010

Traças da Paixão



Chovia torrencialmente naquela manhã de carnaval, e as lágrimas que rolavam em seu rosto ajudavam a umedecer o ar em sua volta, fazendo com que as horas se tornassem mórbidas e o clima outonal. Mas, para ela, era como se fosse quarta-feira de cinzas. Não percebera, mas estava condicionada a sair de barco pela casa ou ser naufragada em seus prantos. Há dias já vinha assim, triste, doída, e não ria; ou se ria, era para dentro tal como costumava tossir.
Sua agitação era grande, extraordinária, e do fundo de sua alma emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. Acendia velas, rezava terços, tomava passes e se benzia toda vez que olhava pela vidraça e via, por entre os prédios, a imagem dele, o causador de seu desatino. Ele se chamava Herculano, cujo apelido lhe será dito na devida hora para que não o pegue de surpresa. Via-o como se fosse um deus grego, em beleza e magnitude, embora soubesse que não passava de um mortal. Amava tanto aquele homem que por ele era até capaz de por fogo em Roma; se Nero não o tivesse posto e, claro, se estivesse vivido naquele tempo.
Chamava-se Benedita e gozava dos seus cinquenta e tantos anos, isso na certidão de batismo, pois nos olhos trazia seus quarenta e poucos, como costumava dizer. Tinha uma pele branca e opaca, tal qual o brilho opaco de seu olhar. Seus cabelos amarelados denunciavam o tempo que já vivera e as tantas vezes que os coloriu em busca de um rejuvenescimento, pois não aceitava a ideia de que o tempo é implacável. Já vivera algum romance, mas o que ela notava era que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos; era, como lhe dizia um amigo, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, e ir a outras(1). Mas esse balbuciou a sua alma, dando-lhe o que não achou na solidão da noite, nem nos tumultos dos dias. Por isso, trazia consigo as insígnias da paixão que, mesmo nas horas de distração, não conseguia se desvincular dos clichês cujos sinais eram perceptíveis a qualquer um que a ela prestasse ouvido. Jurava e tresjurava seu amor a ele. Lembrava-se de coisas bizarras, quase insignificantes, mas que para ela tinha uma importância tamanha, que era capaz de se lançar nos mares bravios da imaginação, em busca de provas, para fazer se materializar aquilo que ela presumia ser real.
Dividia-se em dois mundos, mas não tinha certeza absoluta em qual deles estava, quando bateu a sua porta Herculano.
Bradou desesperada: - Santo Cristo! Que é isso? -, quando viu que, em meio a todo aquele alvoroço festivo de carnaval, aparecia a sua frente, ele, trazendo consigo um embrulho; que nem entregava a ela, nem o abria. Pensou até em mandá-lo entrar, mas não teve coragem para pronunciar nenhuma palavra. O silêncio predominou entre os dois por quase um século; quando que, para o coração, um minuto tem essa equivalência. Ajeitou o laço cor-de-rosa que trazia no alto de seus cabelos, e, com a outra mão, dava-lhe para cumprimentá-lo.
Nesse momento um turbilhão de coisas e imagens lhe veio à cabeça, suscitando-lhe os mais belos cânticos e poemas que ouvira e lera em toda a sua existência. Era capaz de recitar Vinícius, Cartola, Pixinguinha, Noel, Lupicínio e tantos outros, sem perder de vista a cena que se transfigurava aos seus olhos naquele momento. A magia do amor - pensava ela -, em voz que alardiava o seu interior e clareava dentro de si, feito néons das cidades modernas, é capaz de unir os seres na sua plenitude. Tresvariava, quando Herculano, contundentemente, entregou-lhe um pacote e lhe disse adeus.
Queria lhe falar do seu amor, do quanto estava viva a chama da paixão em seu coração e, mesmo não correspondida, era para ele que se fazia viver. Ia desvelar tudo o que trazia nos porões de sua alma, e que agora pairava em suas idéias como uma águia, pronta para atacar a sua presa. Mas quis o destino que escorresse por entre suas mãos e desaparecesse em frente a seus olhos o tão derradeiro momento, e ela, irrompendo de seus delírios, jogou-se ao chão, aos berros, aos prantos, em desvario, rogando por piedade, clamando por justiça. Partiu daí um silêncio indizível, pois ele nem havia dobrado o quarteirão, quando ela retomando os gritos, urrava feito uma fera.
– Não! Não! Não! Berrava e soluçava, pois tinha agora em suas mãos a prova definitiva de que ele, seu grande amor, estava nos braços de outra; enquanto que ela sonhava ser levada ao altar, trazida em uma carruagem num lindo vestido rosa, com flores de laranjeira e todos aqueles aparatos que via em filmes e novelas.
Causou um grande tumulto em seu condomínio, que até uma senhora surda, do andar de cima do seu prédio, foi para a janela, levada pela agitação, pelo espanto que seu comportamento gerou. Quis rogar pelo amor de Deus, por Nossa Senhora que está no céu, mas se lembrou que Nossa Senhora não merecia desgraça e desgraçada era como estava se sentindo naquele momento. Junto ao pacote, em suas mãos, estava um bilhete que não o relatarei; não por falta de coragem, mas para poupar-lhe dos impropérios.
Foi assim, num piscar de olhos, que ela passou do carnaval para os finados. Não tinha disposição nenhuma, quanto mais ao lembrar que dentro daquele pacote ainda permaneciam todos os mimos que, enamorada, deu de presente ao seu amado; um ursinho de pelúcia cor-de-rosa, um par de chinelos, duas ou três cartas de amor, umas peças íntimas e, no auge do romance, uma foto 3x4 sua, tirada no século passado, uma caneta prateada cuja gravação dizia “eterno enquanto dure”, e que, pelo visto, nem havia sido usada por ele. Presentes esses que, Benedita, sentia agora mais revolta do que prazer em ter presenteado.
Via as águas de março fechar o verão e renascer dentro de si a primavera temporã, cujas formas e nuances ainda iriam deflorar. Pressentia uma força sobrenatural reacender o ímpeto de seus desejos e trazê-la novamente à vida. Divagava entre o sonho e a realidade, via-se submersa num oceano de incertezas, num emaranhado de ideias.
Nesse momento parou para pensar em sua vida e refletir sobre ela. Disse para si mesma: - agora vou mudar. Olhou-se no espelho, e pela primeira vez sentiu o peso de sua idade. Seu corpo já não era tão modelado como imaginava; por dentro das roupas vinha se apresentando uma segunda barriga, e seus peitos começavam a ceder às leis da gravidade. Sua pele estava ressecada e com algumas rugas bastante visíveis. Não se sentia feia, mas para bela estava longe. Então, afirmou, olhando para aquela outra pessoa que se fazia presente dentro de si e refletida no espelho:
- chega de Benedita, a partir de hoje serei Helenita, cognato de Helena, mulher de Menelau, rei grego, que foi raptada, e ele e seus companheiros provocaram a Guerra de Tróia para reavê-la. Serei mãe de meus pensamentos e precursora de meus ideais, pois farei valer em mim o princípio da sobrevivência do mais forte, nada me deterá. Não mais sofrerei por amor, e os homens rastejarão por mim. Erguer-me-ei e renascerei das próprias cinzas, como a Fênix, tornando-me vitoriosa, bela e onipotente. Terei o mundo aos meus pés, e por onde eu passar os homens se curvarão aos meus olhos.
Prezado leitor, não sei se não era melhor ter deixado as coisas como estavam; como também não sei se isso não seria pior. As mudanças foram drásticas demais, causando uma turbulência patológica, em que se via nela a necessidade de se sobressair. Passou a ir quinzenalmente ao seu ginecologista, ora alegando dores, ora se sentido doída. Começou a ter dor forte de cabeça - longe de ser enxaqueca -, o que suas explicações eram ininteligíveis à medicina.
Entrou numa academia, passou a fazer meditação; acreditava na filosofia oriental, reverenciava yin-yang e cultuava ao taoísmo. Desde então, passou a ver o mundo com outros olhos e renasceu para a vida, embora continuasse a ir semana sim, semana não ao seu médico. Formou-se uma dependência psicológica a qual ela não conseguia se desvencilhar e nem fazia força para conseguir. Gostava de alimentar seu ego com as idas ao ginecologista e, mais ainda, com o resultado que ela estava obtendo.
Fez uma revolução helenística em sua vida, apoderando-se de um período histórico para demarcar a sua nova fase. Foi a uma concessionária e comprou um carro zero km. Suas mobílias, que mais pareciam retratar o século XIX, agora eram as mais modernas do mercado. Entrara de vez na era dos cds e no mundo digital, adquiriu um Note-book e um celular; quando não estava de olho num, estava a falar no outro. Conheceu gente da alta sociedade, até participou de alguns eventos com celebridades locais. Por alguns instantes, chegou a ter a ideia de montar um brechó - de tantas quinquilharias que havia acumulado ao longo de sua existência. Mas achou melhor doar, e doou tudo. Foi matricular-se numa autoescola, pois estava de um jeito que, quando passava, motoristas profissionais cometiam muitas irregularidades, por ser demais o seu atrevimento ao volante.
Estava numa fase zen, adepta a toda forma de filosofia e elevação espiritual. Perdera as contas de quantos passes, sessão de umbanda, cartas e tarôs já havia recorrido. Até ao Pai João, um charlatão de quinta, que dava atendimento lá nos quintos e cobrava o olho da cara, ela já tinha ido e, o que é pior, vinha sempre convencida dos seus poderes e clarividências.
Um dia, ao consultar uma cigana muito amiga de uma amiga, após ler sua mão, disse-lhe: - Filha, ele está para voltar.
Helenita teve um mau súbito, ficou imóvel por um bom tempo e, se não fosse à respiração ofegante, daria para se dizer que estava em transe, em estado visionário. Demorou a retomar os sentidos, pois, parecia lhe arrebatar uma força sobrenatural. Quando voltou a si, afirmou com contundência que fora abduzida e transladada para junto da nave-mãe. Ninguém contestou, pelo contrário, teve até quem desse credito a sua alucinação. Porém, antes de ir embora, pediu à cigana para ratificar o que lhe dissera. Queria ter certeza de que alguém viria, mas, quem era não sabia, e nem a clarividência poderia atestar.
Os dias foram passando - deu-se natal, ano-novo -, e iniciou-se o mês de março. Tão logo seria carnaval novamente, e a cidade inteira se renderia à batucada e aos desfiles das escolas de samba. Um tempo ocioso estava por vir, e Helenita estava muito intrigada com o que lhe foi dito pela cigana e, mais ainda, pela forma como reagiu mediante à revelação. Dava em não mais dormir à noite, passando em claro muitas madrugadas. Tinha pesadelos quando conseguia uma horinha de sono; às vezes, retratava detalhadamente em contos oníricos, tudo o que vivenciava naquele curto espaço de tempo em que suas pálpebras lhe permitam um descanso fantasmagórico.
Inconformada pela forma como estava sendo compelida a aceitar os acontecimentos em sua vida, foi procurar auxilio em um centro espírita. Poucos davam importância as suas histórias e contatos com Et´s. Uns até diziam ser ela doidivana, por isso, merecia um pouco de atenção para não piorar de vez. Lá, porém, ela se autoafirmou como sensitiva. E foi onde conseguiu acalmar os seus medos e ansiedades. Agora não mais falava em Óvnis, nem em coisas que costumava antever, mas tinha alucinações frequentes.
Vivia para o amor e para a caridade. Ouvia música clássica, e estava montando uma biblioteca particular de livros psicografados e obras espíritas. As idas ao ginecologista passaram a ser bimestral e, semanalmente, era ela quem o recebia em sua casa. Quando as noites eram mal dormidas, complacentemente as aceitava e, sem resignação alguma esperava o amanhecer. Tinha vezes em que se perdia, pois seu relógio biológico não condizia com as horas demarcadas nos fusos horários e, por muitas vezes, anoitecia dentro de si antes mesmo do meio dia.
Num certo dia, no final das férias de verão, o interfone toca. Ao atendê-lo é notificada por um telegrama. Desce para recebê-lo e, na volta, antes mesmo de fechar à porta, começa a lê-lo. Nem teve tempo de pensar em nada, indo direto ao assunto: “Bem, estou morrendo de saudade. Ass. Nenê”. Foi só o que leu, e era só o que havia para ser lido. Indagou a si mesma, quem poderia estar morrendo de saudade? Pouco havia para descobrir, pois o subscrito trazia um pseudônimo desconhecido e um endereço fictício. Do jeito fagueira como andava, não quis se desgastar à procura do tal remetente, tampouco deu importância às palavras dele. Estava para comemorar seu aniversário, e todos os preparativos e pompas eram destinadas a ele e a viagem que lhe daria de presente. Por isso, em nada se sentiu abalada com a mensagem, mesmo que vinda assim, tão repentinamente. Foi ate à cozinha, pegou um copo de água e tomou juntamente com um calmante.
Feito isso, foi se preocupar com os preparativos da viagem. Certificou-se de que não faltava nada, pois queria de vez fechar as malas e só voltar a abri-las no hotel. Era muito meticulosa e organizada, não permitindo qualquer deslize em sua trajetória. Às vezes, bastava uma coisa fora do lugar para que ela desfizesse tudo e começasse a reorganizar. Em sua casa, até as almofadas padeciam ao olhar crítico e perfeccionista dela. Tudo tinha que estar nos conformes, tanto que uns chegavam a dizer que se parecia com casa de boneca aquele lar. Sentia-se feliz assim, mesmo tendo que conviver com a solidão dos dias e com a visita semanal do referido médico. Mais tarde, já no banho, sentiu um formigamento nos pés, uma sensação de levitação, um resfriamento no corpo.

Depois desta peripécia, numa manhã de domingo de Páscoa, a rodoviária é surpreendida com a chegada de turistas que vêm à capital participar de um Fórum Mundial sobre Educação. Os taxistas alvoroçados começam a disputar passageiros, uns furam a fila, outros saem em desatino à procura de pontos estratégicos onde os passageiros pudessem ser atendidos sem incômodos. Nesse instante, para piorar ainda mais a situação, chega um ônibus vindo do interior. Os passageiros começam a desembarcar, se aglomerando junto aos turistas e se debatendo entre pessoas e bagagens. Um caos para uma manhã que até a pouco estava tranqüila e pacata naquela estação. Ninguém poderia prever tamanha algazarra, principalmente por se tratar de um feriado, mas, aos poucos, as pessoas foram se dissipando. O desfecho deste episódio da rodoviária é de tal ordem e tão inesperado, que merecia nada menos de dez páginas de exposição; mas contento-me com uma, que será o remate da narrativa (2).
Atônito, chega até a porta do táxi um passageiro e pede para ter cuidado com as suas malas. Pelo tom de voz, percebe o motorista, que se trata de um sujeito sério e de poucas palavras. Siga para o Alto Petrópolis, disse-lhe o passageiro com voz áspera e rosto franzido. No caminho, o motorista quis lhe falar do mau tempo que encobria a cidade, mas percebeu que o cidadão não estava para conversa e, para distrair, ligou o rádio numa dessas emissoras populares. Pelo retrovisor, viu que o passageiro não se agradou e mudou de estação, sem fazer alarde. A viagem seguia calmamente, apenas a música no rádio quebrava o silêncio que parecia perene. Após rodarem uns vinte minutos a corrida chegou ao fim.
- É aqui, aqui mesmo, disse o passageiro.
- Quanto lhe devo?
- Vinte e oito reais.
- Nossa! Que roubalheira, dali aqui deu esse absurdo!
Pegou as malas e foi se dirigindo para dentro do condomínio. No percurso encontrou um grupo de senhoras sentadas ao sol, e a elas abanou como se fosse íntimo do lugar, das pessoas. Chegou até a cumprimentar um senhor de meia idade que saia pela porta que ele acabava de entrar. Parou, deu uma ajeitada no cabelo, arrumou a gola da camisa e subiu. Tocou a campainha uma, duas, três vezes, como ele costumava fazer, e foi surpreendido quando a porta se abriu. Olhou na altura da porta para confirmar se o número era aquele mesmo 202, pois achou que estivesse treslido e, por isso, não estava associando o apartamento com a proprietária. E, ainda não estava em si, quando, na porta, uma crioula gorda e de vassoura na mão lhe indagou:
- Ó gente! Que é isso? Nem nos domingos se pode ter sossego. - Olha, já vou lhe adiantando, se é venda, tô fora. A vida tá difícil, tô com o aluguel atrasado, e os meninos ainda dormem por não ter o que dar a eles de Páscoa. Disse isso e fechou a porta bruscamente. Mas ele, insistente e indignado, tornou a bater.
- Pronto! Desembucha “ômi”, o que quer? - Diga logo, porque tenho mais o que fazer e não posso acordar os meninos com trololó na porta.
- Minha senhora, me desculpe. Venho a procura de Benedita cujo endereço a este confere.
- Virgem! Há tempo que não a vê.
- Como sabes disso? - Por acaso, és vidente?
- Ora, bolas. Basta ser preta e pobre que já acham que a gente é charlatona, vigarista, macumbeira, vidente e outros cambaus. Mas saiba que não, sou honesta, mas isso não lhe vem ao caso. Se de fato quer com ela falar, vá a Paris, pois, antes das apresentações das sinfonias de Bethoven, Mozart e Shumann, ela deixou dito que não virá. Tá de namoro com seu ginecologista, e se mudou para a zona nobre da cidade. Ah, e antes que eu me esqueça, Benedita agora se chama Helenita.

Nas alturas, entre turbulências e enjoos, Helenita escutou a voz do comandante anunciando que apertassem o cinto, pois estavam próximos do aeroporto e a aterrissagem era iminente. Não se conteve de felicidade, pegou na mão do seu amado e juntos comemoraram aquele momento indescritível. Para ela era uma experiência edênica, pois via ali o paraíso e as suas glórias. Sempre vislumbrou Paris, e estar na França era a realização de um sonho antigo, uma quimera. Combinaram que após deixarem suas malas no hotel iam diretamente ao Louvre, pois estava renovada com o céu e ares parisienses. Nem se abalou com a notícia de que suas malas foram extraviadas, tampouco em saber que as reservas não foram confirmadas. Estava em êxtase para se preocupar com coisas insignificantes naquele momento. Acomodaram-se próximo dali e, num instante, já estavam subindo os degraus do museu mais famoso do mundo.
Impaciente, Helenita queria ver a preciosidade de Mona lisa, nem se deparou a admirar a pirâmide de vidro projetada para unir o passado ao presente, num símbolo de secularidade ao novo milênio. Guiada pela intuição foi direto ao quadro. Ficou horas a admirá-lo, fez todo o tipo de observação, fez comentários insolentes. Disse para si mesma que não tinha aquele olhar sarcástico e levemente debochado que via pintado no rosto daquela mulher. Chamou pelo seu companheiro que estava em outra galeria, e juntos contemplaram estarrecidos tudo o que os olhos admiravam. Deixaram muitas coisas para serem vistas e, apressadamente, foram ao símbolo da França. Lá chegando, estava ela toda iluminada, a Torre Eiffel esplendorosa, secular e inspiradora poética de muitos românticos. Helenita quis subir à torre, mas foi informada de que não havia possibilidade, pois ela estava sendo reformada. Ficou imóvel a contemplar aquela arquitetura, e as batidas de seu coração podiam ser ouvidas a quilômetros. Não conteve as lágrimas, aproximando-se de seu ginecologista - como via no cinema -, roubou-lhe um beijo. Espantado com a iniciativa inesperada de Helenita, ele mal pode retribuir, deixando a desejar aos ímpetos da amada.
O celular tocou, ela atendeu e foi notificada por uma aeromoça de que suas malas haviam sido encontradas. Percebeu que precisava se refazer, tomar um banho, e suas roupas, agora encontradas, iriam lhe cair bem. Foram buscá-las e depois se dirigiram ao hotel.

No banho, enquanto se ensaboava, ouviu janelas baterem. Uma ventania anunciava mudança do tempo. Faltou luz. Quis se desesperar, e viu sangue correr por entre o ralo no piso. Sentiu dores fortes pela cabeça, não se lembrava onde estava, nem reconheceu as cores vivas nas paredes do banheiro. Sozinha ali, pressentiu estar chegando a sua hora, os olhos escureceram-se e condoída chamou por um nome: Herculano.
Em frente ao leito em que ela se encontrava, médicos davam o diagnóstico da paciente a ele, diziam que fora socorrida na hora certa e salva por um milagre. Perdera muito sangue com o ferimento causado por um estilhaço de vidro em sua cabeça, pois havia batido com a nuca na basculante do banheiro, já em estado alucinógeno.
Estava em observação, porque tivera uma crise alucinante onde insistia que a receita de um medicamento era seu passaporte e, que as antenas de transmissão digital, vista pela janela do quarto hospitalar, era a Torre Eiffel. Dizia que faltava uma mala, logo a que estava o seu vestido rosa rendado, pois era com ele que iria se casar em Paris. Os médicos proibiram a visita de Herculano. A paciente só teria alta dali a uns cinco dias e, para bem de sua saúde, ninguém poderia interferir em seu tratamento, nem ao menos com uma visita.
O que aconteceu depois deste fato, não cabe a ciência humana e nem a um conto relatar, pois o coração tem lá as suas razões, e as traças da paixão estão impregnadas a ele.

*(1) e (2) citações de Machado de Assis.

Conto AUTORAL: Fernando Caiel

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Criacionismo

Criacionismo: Teoria que explica a origem dos seres vivos por criação. Ela é contrária a chamada evolução espontânea (evolucionismo).

Criação: é o nome que se dá à formação do universo e dos seres vivos. A necessidade de buscar explicações para sua própria origem levou ao surgimento de teorias que deram origem a algumas religiões.

Num segundo momento, de racionalização do pensamento criacionista, formularam-se conceitos e propostas de sentido mais filosófico do que religioso. Nesse plano, as respostas podem reduzir-se a três possibilidades: a auto-suficiência da matéria eterna, a emanação a partir da substância divina, e a criação.

O Gênesis: O primeiro livro do Antigo Testamento, descreve a origem do mundo e do homem com linguagem e imagens semelhantes às dos relatos mesopotâmicos. O primeiro capítulo diz: "No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, um vento de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: 'Haja luz' e houve luz. Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a luz e as trevas. Deus chamou à luz 'dia' e às trevas 'noite'. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia. (...) Deus disse: 'Fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra, diante do firmamento do céu' e assim se fez. (...) Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou."

Os mitos: são soluções imaginativas que alguns povos elaboram para justificar sua existência, sua história e os fenômenos da natureza. Algumas explicações, no entanto, encontram ressonância em homens das mais diversas culturas.

No Brasil, a cosmogonia dos índios se reporta a um criador do céu, da Terra e dos animais (o Monã dos tupinambás) e a um criador do mar, Amã Atupane, talvez Tupã, entidade mítica que os jesuítas consideraram a expressão mais adequada da idéia de Deus surgida nos domínios da catequese.
Os estudiosos do século XIX pensavam que o tema da criação por um ser supremo era inerente a um estágio cultural avançado. Pesquisas posteriores, no entanto, observaram essa crença entre povos primitivos da África, ilhas do norte do Japão, América, Austrália central e em muitas outras partes do mundo.

A natureza desse ser supremo, que freqüentemente é acompanhado de algum outro, hierarquicamente inferior, difere de cultura para cultura. A criação se realiza mediante seu pensamento, sua palavra - como na Bíblia e no Popol Vuh - e, às vezes, com certo sentido de emanação. Todos esses relatos, porém, possuem algumas características comuns.

Pensamento filosófico e religioso: O judaísmo enfatiza em seu dogma a afirmação de que Deus criou o mundo, o que constitui um princípio de fé e uma base ética da religião judaica. Fílon defendia a idéia bíblica da criação a partir do nada, enquanto os rabinos do Talmude defendiam idéias gnósticas sobre a criação.

Os reformadores protestantes, desde os primórdios da Reforma, procuraram chamar a atenção não para a criação, mas para um Criador, cujo ser não se identifica com nenhuma das coisas criadas e se acha acima do mundo, independente dele. Não se trata, portanto, de saber se Deus criou do nada, mas de afirmar pela fé a existência do Criador.

Um dos grandes problemas suscitados pelo conceito de criação é o da existência do mal num mundo criado por Deus. Os mitos já se propunham a questão e, para explicá-la, lançavam mão do dualismo e do antagonismo. O pensamento cristão entende o mal como privação do bem, como limitação do ser finito.

Os filósofos e os teólogos ficaram com a responsabilidade de tentar explicar outras questões, tais como a liberdade de Deus no ato da criação, sua contínua ação preservadora, que, entretanto, não invalida a ação humana, e o objetivo de Deus ao criar. Pode-se dizer, portanto, que o conceito de criação, como uma das possíveis explicações da origem do mundo, constitui um ponto central de referência na história do pensamento.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

DENGUE!!!


Dengue - Saiba como se prevenir...

O que é dengue
Modo de transmissão
Locais onde ocorre a doença
Sintomas
O mosquito
Medidas gerais de prevenção

O que é dengue

É uma doença infecciosa aguda de curta duração, de gravidade variável, causada por um arbovírus, do gênero Flavivírus (sorotipos: 1,2,3 e 4). No Brasil, circulam os tipos 1, 2 e 3. O vírus 3 está presente desde dezembro de 2000 e foi isolado em janeiro de 2001, no Rio de Janeiro. A dengue é transmitida principalmente pelo mosquito Aedes aegypti infectado mas também pelo Aedes albopictus. Esses mosquitos picam durante o dia, ao contrário do mosquito comum (Culex), que pica durante a noite. O Aedes aegypti é principalmente encontrado em áreas tropicais e subtropicais do mundo, inclusive no Brasil, pois as condições do meio ambiente favorecem seu o desenvolvimento e proliferação. As epidemias geralmente ocorrem no verão, durante ou imediatamente após períodos chuvosos. A dengue está se expandindo rapidamente, e a grande preocupação é que nos próximos anos a transmissão aumente por todas as áreas tropicais do mundo se medidas eficientes não forem tomadas para a contenção das epidemias.
Modo de transmissão

A transmissão se dá pela picada do mosquito Aedes aegypti que ficou infectado porque picou uma pessoa doente. Esse mosquito infectado, picando uma pessoa sadia, passa o vírus da dengue e esta pessoa fica doente. A doença só acomete a população humana. Os transmissores de dengue, principalmente o Aedes aegypti, proliferam-se dentro ou nas proximidades de habitações (casas, apartamentos, hotéis etc.) em qualquer coleção de água limpa (caixas d'água, cisternas, latas, pneus, cacos de vidro, vasos de plantas). As bromélias, que acumulam água na parte central (aquário), também podem servir como criadouros. A transmissão da dengue é mais comum em cidades. Também pode ocorrer em áreas rurais, mas é incomum em locais com altitudes superiores a 1200 metros. Não há transmissão pelo contato direto de uma pessoa doente para uma pessoa sadia. Também não há transmissão pela água, por alimentos ou por quaisquer objetos. A dengue também não é transmitida de um mosquito para outro. Quem pica é a fêmea e o faz para sugar o sangue. Os mosquitos acasalam 1 ou 2 dias após tornarem-se adultos. A partir daí, as fêmeas passam a se alimentar de sangue, que fornece as proteínas necessárias para o desenvolvimentos dos ovos. As fêmeas têm preferência pelo sangue humano. Elas atacam vorazmente. São ativas durante o dia, podendo picar várias pessoas diferentes, o que explica a rápida explosão das epidemias de dengue.
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Locais onde ocorre a doença

No Brasil, a erradicação do Aedes aegypti na década de 30, levada a cabo para o controle da febre amarela, fez desaparecer também a dengue. No entanto, em 1981 a doença voltou a atingir a Região Norte (Boa Vista, Roraima). No Rio de Janeiro (Região Sudeste) ocorreram duas grandes epidemias. A primeira em 1986-87, com cerca de 90 mil casos, e segunda em 1990-91, com aproximadamente 100 mil casos confirmados. A partir de 1995, a dengue passou a ser registrada em todas as regiões do país e, em 1998, o número de casos chegou a 570.148. Em 1999 houve uma redução (210 mil casos), seguida de elevação progressiva em 2000 (240 mil casos) e em 2001 (370 mil casos). Nesse último ano, a maioria dos casos (149.207) ocorreu na região Nordeste. No Estado de São Paulo, em 1990, começa uma grande epidemia na região de Ribeirão Preto, que se disseminou para outras regiões. Em 1995, já haviam 14 municípios envolvidos com a transmissão da dengue. Na década de 50, foi reconhecida e descrita pela primeira vez uma grave manifestação clínica associada à dengue, a febre ou dengue hemorrágica. Não se sabe bem porque, mas a dengue hemorrágica se comportou como uma doença relativamente rara antes da década de 50. Isso pode ter acontecido devido aos fatores de ordem social, como a intensa urbanização e maior intercâmbio entre as diferentes regiões do planeta, que podem ter contribuído para o aumento da incidência da dengue de maneira geral possibilitando o aparecimento de grandes contingentes populacionais com experiências imunológicas com a dengue, fazendo com que assim existisse o risco da dengue hemorrágica. O Estado de São Paulo registrou a ocorrência de 78.614 casos autóctones (adquiridos no próprio Estado) de dengue, em 358 municípios, entre janeiro e outubro de 2007, com considerável expansão da doença para novas áreas. Durante todo o ano de 2006 foram registrados 50.021 casos em 254 municípios. Atualmente, temos 508 municípios infestados com o Aedes aegypti, excluindo-se apenas alguns municípios do Vale do Ribeira e do Paraíba e das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas. O único modo possível de evitar a introdução de um novo tipo do vírus da dengue é a eliminação dos transmissores. O Aedes aegypti também pode transmitir a febre amarela.
Sintomas

A dengue clássica é usualmente benigna. A infecção causada por qualquer um dos quatro tipos (1, 2, 3 e 4) do vírus da dengue produz as mesmas manifestações. A determinação do tipo do vírus da dengue que causou a infecção é irrelevante para o tratamento da pessoa doente. A dengue é uma doença que, na grande maioria dos casos (mais de 95%), causa desconforto e transtornos, mas não coloca em risco a vida das pessoas. Inicia-se com febre alta, podendo apresentar cefaléia (dor de cabeça), prostração, mialgia (dor muscular, dor retro-orbitária - dor ao redor dos olhos), náusea, vômito, dor abdominal. É freqüente que, 3 a 4 dias após o início da febre, ocorram manchas vermelhas na pele, parecidas com as do sarampo ou rubéola, e prurido ("coceira"). Também é comum que ocorram pequenos sangramentos (nariz, gengivas). A maioria das pessoas, após quatro ou cinco dias, começa e melhorar e recupera-se por completo, gradativamente, em cerca de dez dias. Em alguns casos (a minoria), nos três primeiros dias depois que a febre começa a ceder, pode ocorrer diminuição acentuada da pressão sangüínea. Esta queda da pressão caracteriza a forma mais grave da doença, chamada de dengue "hemorrágica". Este nome pode fazer com que se pense que sempre ocorrem sangramentos, o que não é verdadeiro. A gravidade está relacionada, principalmente, à diminuição da pressão sangüínea, que deve ser tratada rapidamente, uma vez que pode levar ao óbito. A dengue grave pode acontecer mesmo em quem tem a doença pela primeira vez. O doente se recupera, geralmente sem nenhum tipo de problema. Além disso, fica imunizado contra o tipo de vírus (1, 2, 3 ou 4) que causou a doença. No entanto, pode adoecer novamente com os outros tipos de vírus da dengue. Em outras palavras, se a infecção foi com o tipo 2, a pessoa pode ter novamente a dengue causado pelos vírus dos tipos 1, 3 ou 4. Em uma segunda infecção, o risco da forma grave é maior, mas não é obrigatório que aconteça. Existem diferentes teorias para explicar o surgimento da dengue hemorrágica. Alguns afirmam que ela passa a ter alta incidência em uma população já anteriormente exposta a um outro tipo de vírus da dengue. Seria a exposição seqüencial a um segundo diferente tipo de vírus, que causaria a dengue do tipo hemorrágica. Para outros, a dengue hemorrágica dependeria da maior virulência de determinadas cepas do vírus, isto é, existiriam formas virais mais agressivas do que outras. Uma última explicação seria que as formas hemorrágicas da dengue estariam mais associadas ao tipo 2 do vírus.

O mosquito

O Aedes aegypti pertence à família Culicidae, a qual apresenta duas fases ecológicas interdependentes: a aquática, que inclui três etapas de desenvolvimento - ovo, larva e pupa -, e a terrestre, que corresponde ao mosquito adulto. A duração do ciclo de vida, em condições favoráveis, é de aproximadamente 10 dias, a partir da oviposição até a idade adulta. Diversos fatores influem na duração desse período, entre eles a temperatura e a oferta de alimentos.

Detalhes do ciclo de vida

OVO
Os ovos são depositados pela fêmeas acima de meio líquido à superfície da água, ficando aderidos à parede interna dos recipientes. Após a postura tem início o período de incubação, que em condições favoráveis dura 2 a 3 dias, quando estarão prontos para eclodir. A resistência à dessecação aumenta conforme os ovos ficam mais velhos, ou seja, a resistência aumenta quanto mais próximos estiverem do final de desenvolvimento embrionário. Este completo, eles podem se manter viáveis por 6 a 8 meses. A fase de ovo é a de maior resistência de seu biociclo.

LARVA
As larvas são providas de grande mobilidade e têm como função primária o crescimento. Passam a maior pare do tempo alimentando-se de substâncias orgânicas, bactérias, fungos e protozoários existentes na água. Não selecionam alimentos, o que facilita a ação dos larvicidas, bem como não toleram elevadas concentrações de matéria orgânica na água. A duração da fase larval, em condições favoráveis de temperatura (25 a 29º C) e de boa oferta de alimentos, é de 5 a 10 dias, podendo se prolongar por algumas semanas em ambiente adequado.

PUPA
A pupa não se alimenta, apenas respira e é dotada de boa mobilidade. Raramente é afetada por ação de larvicida. A duração da fase pupal, em condições favoráveis de temperatura é de 2 dias em média.

ADULTO
Macho e fêmea alimentam-se de néctar e sucos vegetais, sendo que a fêmea depois do acasalamento, necessita de sangue para a maturação dos ovos. Há uma relação direta, nos países tropicais, entre as chuvas e o aumento do número de vetores. A temperatura influi na transmissão da dengue. Raramente ocorre transmissão da dengue em temperaturas abaixo de 16º C. A transmissão ocorre preferencialmente em temperaturas superiores a 20º C. A temperatura ideal para a proliferação do Aedes aegypti estaria em torno de 30 a 32 ºC.

Medidas gerais de prevenção

O melhor método para se combater a dengue é evitando a procriação do mosquito Aedes aegypti, que é feita em ambientes úmidos em água parada, seja ela limpa ou suja. A fêmea do mosquito deposita os ovos na parede de recipientes (caixas d'água, latas, pneus, cacos de vidro etc.) que contenham água mais ou menos limpa e esses ovos não morrem mesmo que o recipiente fique seco. Não adianta, portanto, apenas substituir a água, mesmo que isso seja feito com freqüência. Desses ovos surgem as larvas, que, depois de algum tempo vivendo na água, vão formar novos mosquitos adultos. O combate ao mosquito deve ser feito de duas maneiras: eliminando os mosquitos adultos e, principalmente, acabando com os criadouros de larvas. Para eliminação dos criadouros é importante que sejam adotadas as seguintes medidas: - Não se deve deixar objetos que possam acumular água expostos à chuva. Os recipientes de água devem ser cuidadosamente limpos e tampados. Não adianta apenas trocar a água, pois os ovos do mosquito ficam aderidos às paredes dos recipientes. Portanto, o que deve ser feito, em casa, escolas, creches e no trabalho, é: • substituir a água dos vasos das plantas por terra e esvaziar o prato coletor, lavando-o com auxílio de uma escova; • utilizar água tratada com água sanitária a 2,5% (40 gotas por litro de água) para regar bromélias, duas vezes por semana*. 40 gotas = 2ml; • não deixar acumular água nas calhas do telhado; • não deixar expostos à chuva pneus velhos ou objetos (latas, garrafas, cacos de vidro) que possam acumular água; • acondicionar o lixo domiciliar em sacos plásticos fechados ou latões com tampa; • tampar cuidadosamente caixas d'água, filtros, barris, tambores, cisternas etc. Para reduzir a população do mosquito adulto, é feita a aplicação de inseticida através do "fumacê", que deve ser empregado apenas quando está ocorrendo epidemias. O "fumacê" não acaba com os criadouros e precisa ser sempre repetido, o que é indesejável, para matar os mosquitos que vão se formando. Por isso, é importante eliminar os criadouros do mosquito transmissor. Além da dengue, se estará também evitando que a febre amarela, que não ocorre nas cidades brasileiras desde 1942, volte a ser transmitida.

sábado, 17 de abril de 2010

Começando aqui...

Você não estará sozinho a vagar: Deus vai lhe amparar.

Um dia - por amor ou pela dor - todos nós recorreremos a Deus como sendo nossa válvula de escape. Pois é a Ele que clamemos na última hora, sendo ou não cristão. No mundo de hoje, em meio à tanta violência, o caos tomou conta de nossas vidas. Não mais sabemos o que é verdadeiro ou falso, confundimos o real com o surreal e a fé com a religião. O conceito da "verdade" vem desafiando a humanidade por milhares de anos. Filósofos da antiga Grécia debatiam a natureza da verdade. Eles discutiam se ela era real e absoluta, ou relativa e ilusória. Suas dúvidas podem ter sido refletidas numa questão de Pilatos: "Que é a verdade?" (João 18:38). Ainda em João 8:32, Jesus disse: "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Não há neste mundo algo tão maravilhoso quanto à liberdade. Ela nos dá o direito de nos comprazer com aquilo que há de mais divino em nós, e, através dessa mística, eleva o nosso espírito a um Ser criador.
Tenho ouvido muito este quarteto e, indiferente de credo ou religião, ele tem me feito refletir sobre a verdade inerente em cada um de nós. Sobre aquilo que sabemos sem conhecer. Algo que existe lá dentro de nós com o qual nos identificamos com apenas uma palavra. Muitos pregam religião, tentando nos persuadir em seus credos ou até mesmo nos convertendo a eles. Porém, poucos fazem de sua fé um exemplo a ser seguido. Conheci na faculdade um colega que é pastor e tenho o privilégio de ser amigo dele. Muito falamos a respeito de Deus e sua bondade, mais ainda sobre os mistérios que envolvem o seu nome. Foi dele a melhor definição que tive de Deus, até então desconhecida de mim: "Deus é como o vento: sei que ele existe, mas não o vejo." Posso afirmar que renascia em mim o desejo de encontrar a verdade, talvez a minha própria verdade, àquela escondida no âmago de minha alma.
Quando falo em minha própria verdade, estou me referindo aos ensinamentos dados por minha mãe - "Ensinai à criança o caminho em que ela deve andar, e, mesmo depois de velha, ela não se desviará dele" (Prov. 22:6) -, pois vem dela toda a formação religiosa que tenho. Aprendi, através deste amigo, a lidar com assuntos relacionados a fé, a conversar com Deus. Pois ele tem o dom de evangelizar sem ser moralista, de testemunhar através de seus atos de bondade, caridade e amor. Um dia ele me disse que para anunciar a Cristo não precisava estar numa congregação, bastava estar entre as pessoas, em qualquer lugar. E vejo o quanto ele estava certo, pois o mundo tem sede de conhecimento, verdade, justiça...

Ao ouvir esta melodia pela primeira vez (Se pode uma palavra), lembrei-me do dia em que fomos visitar uns necessitados, num vilarejo, onde ele dá assistência. Lá, pude perceber o quanto somos desumanos e egoístas, achando sempre que as necessidades alheias são para os outros resolver e não nós. Fazemos de conta que o problema não existe, enquanto milhares carecem não apenas de comida e agasalho, mas, principalmente, de carinho e atenção. Mais uma vez comprovei a teoria de que existe muita diferença entre o dizer e o fazer...
"Se um gesto de atenção restaura o brilho de um sorriso, se um pouco só de amor trasnforma o mundo em paraíso, se posso ao meu irmão prestar socorro em rude prova, oh, Deus eu quero ter mais desse amor que o ser renova" Saí desse encontro revigorado e com a certeza de que podemos sempre fazer mais uns pelos outros, indiferente de que situação esteja o nosso semelhante. Não precisou palavras para que houvesse em mim uma trasformação, pois o ato em si já demostrava o que mil sermões não atingiriam com esta imagem (fui eu quem fez a foto). Vi ali retratado toda uma problemática social, familiar e afetiva, desde o casebre até os chinelos nos pés da criança. Porém, a grandeza maior não estava naquilo que ía ser doado, mas sim, na humildade do gesto em se doar... Confesso que a partir daí o ato de repartir tomou outra dimensão em minha vida.
Sabemos que a vida é feita de percalços, inseguranças e indecisões, mas, se, ao invés de tragédia e tristeza, cultivarmos a alegria e a solidariedade, poderemos, indiferente do credo de cada um, usufruir de uma paz imensurável e reconhecer que o céu é aqui, logo, temos que começar por aqui mesmo.